RELEMBRE: Médica morre durante velório da mãe

Em julho de 2024, o Brasil acompanhou com surpresa e comoção o
falecimento repentino de Myriam Priscila de Rezende Castro, uma médica de
43 anos que partiu durante o velório de sua própria mãe, em Campos do
Jordão, interior de São Paulo. Enquanto velava o corpo da matriarca, ela
sofreu um infarto agudo que não resistiu aos primeiros socorros.

O corpo foi cremado dias depois em São José dos Campos, onde ela exercia a
ginecologia e obstetrícia. A notícia trouxe à tona não apenas o luto familiar,
mas também uma vida repleta de capítulos intensos: sucesso profissional,
controvérsias judiciais, maternidade tardia e tentativas de reconstrução
pessoal. Duas décadas após um episódio que a colocou em evidência
nacional, Myriam deixou um rastro de perguntas sobre arrependimento,
redenção e as complexidades da natureza humana.


Tudo começou em 2002, quando Myriam, então com 21 anos e ainda
estudante de medicina em Barbacena, Minas Gerais, viveu um dos
momentos mais dramáticos de sua existência. Após o rompimento
inesperado de um noivado marcado para poucos dias, ela contratou
terceiros para executar uma ação que resultou em grave lesão corporal ao
ex-noivo, enquanto ele dormia. O caso ganhou repercussão nacional pela
natureza do ato e pelas consequências físicas e emocionais para a vítima.
Nos anos seguintes, o processo judicial se arrastou, culminando em
condenação a seis anos de prisão em 2013. Parte da pena foi cumprida em regime semiaberto e, posteriormente, em prisão domiciliar, após o
nascimento de seus filhos gêmeos. Na época, Myriam manifestou
arrependimento público, pediu desculpas à vítima e afirmou que o episódio
havia sido motivado por uma dor emocional profunda

Apesar do peso do passado, Myriam conseguiu retomar a carreira médica.
Com autorização judicial, voltou a atender pacientes em hospitais públicos e
privados de Minas Gerais a partir de 2014. Especializada em ginecologia e
obstetrícia, ela se destacou pela competência técnica e pelo atendimento
acolhedor, segundo relatos de colegas e pacientes. O Conselho Regional de
Medicina manteve seu registro ativo, permitindo que ela continuasse
contribuindo na área da saúde da mulher. Essa fase representou uma
tentativa concreta de recomeço: da jovem envolvida em polêmica para uma
profissional estabelecida, mãe de família e provedora do lar. Muitos viam
nela um exemplo de que é possível, com esforço e tempo, reconstruir uma
trajetória após erros grave

A vida pessoal, porém, continuou a apresentar desafios. Em 2011, Myriam se
envolveu em outro episódio judicial, desta vez relacionado a uma discussão
financeira com a ex-companheira de seu parceiro à época. O caso evoluiu
para acusação de tentativa de homicídio, mas acabou arquivado ou
resolvido em instâncias inferiores. Casada desde 2016 com um estudante de
veterinária mais jovem, ela parecia buscar estabilidade emocional e familiar.
Os gêmeos, nascidos durante o período de pena domiciliar, tornaram-se o
eixo central de sua rotina. Amigos próximos descreviam uma mulher
dedicada ao lar, aos filhos e à profissão, embora o histórico de conflitos
relacionais levantasse questionamentos sobre padrões emocionais não
resolvidos.

Em 2022, uma nova investigação policial em Tremembé, São Paulo, trouxe à
tona preocupações graves sobre o ambiente doméstico. Após denúncias,
autoridades encontraram na residência do casal condições inadequadas de
convivência, ferimentos em menores, no marido e em uma idosa que residia
no local, além de diversos animais em situação de descuido. Myriam foi
indiciada por suspeita de maus-tratos à família, ao idoso e aos animais. As
crianças foram acolhidas temporariamente pelo Conselho Tutelar, e parte
dos animais foi resgatada pela Polícia Ambiental. O marido, que dependia
financeiramente da esposa, hesitou inicialmente em formalizar queixas, mas
o inquérito seguiu seu curso. Esse capítulo expôs vulnerabilidades em
dinâmicas familiares e reacendeu o debate sobre a necessidade de redes de
proteção mais eficazes.

Mesmo diante dessas adversidades, Myriam manteve a rotina de
atendimentos em clínicas de Guaratinguetá, Lorena, Paraty e São José dos
Campos até os últimos dias de vida. Colegas a lembram como uma
profissional atualizada, empática com as pacientes e comprometida com a
saúde reprodutiva. Os processos judiciais pendentes – lesão corporal do
passado, maus-tratos recentes e outras questões – continuavam a pairar
sobre sua reputação, mas não impediram que ela exercesse a medicina com
regularidade. Sua história ilustra a tensão entre o exercício da profissão e o
peso de decisões anteriores, um dilema que muitos profissionais enfrentam
quando o passado não desaparece por completo.

Dois anos após sua morte, em 2026, o nome de Myriam Priscila de Rezende
Castro ainda desperta reflexões. Sua trajetória – de impulsos juvenis a uma
carreira consolidada, passando por maternidade, controvérsias e uma partida
abrupta – serve como espelho das fragilidades humanas. Psicólogos e
juristas apontam lições sobre o manejo da raiva, a importância do apoio
psicológico contínuo e a dificuldade de julgar vidas inteiras por capítulos
isolados. Para alguns, ela representa a possibilidade de mudança; para
outros, um alerta sobre a repetição de padrões destrutivos.
Independentemente da lente escolhida, sua história nos convida a olhar com
mais empatia e menos pressa para as narrativas alheias. Myriam partiu, mas
as perguntas que deixou permanecem, lembrando que ninguém é definido
apenas por seus erros – nem tampouco apenas por si mesmo.

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